quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

CULTURA NO BLOG - A lenda do Pequi

A LENDA DO PEQUI


Marieta Teles Machado




Tainá-racan tinha os olhos cor de noite estrelada. Seus cabelos desciam pelas espáduas com um tufo de seda negra e luzidia. O andar era elegante, cadenciado, macio como o de uma deusa passeando, flor entre flores, no seio da mata. Maluá botou os olhos em Tainá-racan e o coração saltou, louco e fogoso, no peito do jovem e formoso guerreiro. "Ela é mesmo linda como a estrela da manhã. Quero-a para minha esposa. Hei de amá-la enquanto durar a minha vida!"

Doce foi o encontro e, juntos e casados, a vida dos dois era bela e alegre com o ipê florido. De madrugada, Maulá saía para a caça e para a pesca, enquanto a esposa tecia os colares, as esteiras, moqueava o peixe, preparando o calugi para ofertar ao amado, quando ele chegasse com o cesto às costas, carregado de peixe e frutas, as mais viçosas, para oferecer-lhe.
O tempo foi passando, passando. No enlevo do amor, eles não perceberam quantas vezes a lua viajou pela arcada azul do céu, quantas vezes o sol veio e se escondeu na sua casa do horizonte. Floriram os ipês. Caíram as flores. Amareleceram as folhas, que o vento levava em loucas revoadas pelos campos. Os vermelhos cajus arcavam de fartura e beleza os galhos dos cajueiros. As castanhas escondiam-se no seio da terra boa. Rebentavam-se em brotos, e novos cajueiros despontavam. As cigarras enchiam as matas com sua forte sinfonia e sua vida evolava-se, aos poucos, em cada nota de seu canto. Nascimentos, mortes, transformações e os dias andando, andando.
Após três anos de casamento, numa noite bonita, em que o rio era um calmo dorso de prata à luz do luar e os bichos noturnos cantavam fundas tristezas e medos, Maluá encostou a cabeça no peito de Tainá-racan e apertou-a com ternura. No olhar de ambos, há muito, havia uma sombra. Nenhum deles tinha a coragem de falar. Uma palavra de mágoa, temiam, poderia quebrar o encanto de seu amor. A beleza da noite estremecia o coração sensível de Tainá-racan. Ela ajuntou a alma dos lábios e perguntou com voz trêmula, em sussurro:
-Estás triste, amado meu? Nem é preciso que respondas. Há tempo vejo uma sombra nos teus olhos.
-Sim, respondeu o valente guerreiro. Tu sabes que eu estou triste e tu também estás. A dor é a mesma.
-Onde está nosso filho que Cananxiué não quer mandar?
-Sim, onde está nosso filho?...
Maluá alisou com carinho o ventre da formosa esposa. "E o nosso filho não vem", murmurou. Dois pequeninos rios de lágrimas deslizaram pelas faces coradas de Tainá-racan. Um vento forte perpassou pela floresta. Uma nuvem escura cobriu a lua, que não mais tornava de prata as águas mansas do rio. Trovões reboaram ao longe. Maluá envolveu Tainá-racan nos braços e amou-a. "Nosso filho virá, sim. Cananxiué no-lo mandará".
Quando os ipês voltaram a florir, no ano seguinte, numa madrugada alegre, nasceu Uadi, o Arco-Íris. Era lindo, gordinho, tinha os olhos cor de noite estrelada como os da mãe e era forte como o pai. Mas, havia nele algo diferente, algo que espantou o pai, a mãe, a tribo inteira: Uadi tinha os cabelos dourados como as flores do ipê. Maluá recebeu o nascimento do filho como um presente de Cananxiué. Seu coração, contudo, estremeceu com a singularidade dele. Começou a espalhar pelo tribo a lenda de que o menino era filho de Cananxiué. O menino crescia cheio de encanto, alegria e de uma inteligência incomum. Fascinava a mãe, o pai, a aldeia, a tribo toda. Com rapidez incrível aprendeu o nome das coisas e dos bichos. Sabia cantar as baladas tristes e alegres que a mãe ensinava. Era a alegria e a festa da mãe, do pai, da tribo.
Um dia, Maluá, com outros guerreiros, foi chamado para a luta. Os olhos pretos de Tainá-racan encheram-se de lágrimas. O rostinho vivo de Uadi se ensombreceu. À despedida, seus bracinhos agarram-se ao pescoço do pai e ele falou: "Papai, vou-me embora para a noite, depois, chegarei à casa de Tainá-racan, a mãe, lá no céu". E seu dedinho róseo apontou o horizonte. O corpo de bronze do guerreiro se estremeceu. Seus lábios moveram-se, mas as palavras teimavam em não sair. Ele apertou, com força, o menino nos braços e, por fim, falou: "Que é isso, filhinho, tu não vais para lugar nenhum, nenhum deus te arrancará de mim. A tua casa é a casa de tua mãe, Tainá-racan, aqui na terra, e a de seu pai. Se for preciso, não partirei para a guerra. Ficarei contigo".
Nesse momento, Cananxuié, o senhor de todas as matas, de todos os animais, de todos os montes, de todos os valores, de todas as águas e de todas as flores, desceu do céu sob a forma de Andrerura, a arara vermelha, e gritou um grito forte: "Vim buscar meu filho!" Agarrou-o e levou-o pelos ares. Tainá-racan e Maluá caíram de joelhos. O guerreiro abriu os braços gritando: "O filho é nosso, sua casa é a de sua mãe, Tainá-racan, aqui na terra! Devolve meu filho, a Cananxiué! O grito de Maluá ecoou pela mata, ferindo de dor o silêncio. O peito do guerreiro palpitava de sofrimento como uma montanha ferida pelo terremoto. O velho chefe guerreiro aproximou-se dele, bateu-lhe no ombro e bradou: "Teus companheiros já partem. Maior que tua dor é tua honra de guerreiro e a glória de nossa tribo! Vai, meu filho, Cananxiué buscou o que é dele. Muitos outros filhos ele te dará. Tainá-racan é jovem. Tu és jovem. Vai, guerreiro, não deixa a dor matar sua coragem!"
Maluá partiu. Tainá-racan encostou a fronte na terra, onde pouco antes pisavam os pezinhos encantados de Uadi. Chorou. Chorou. Chorou três dias e três noites. Então, Cananxiué se apiedou dela. Baixou à terra e disse: "Das tuas lágrimas nascerá uma planta que se transformará numa árvore copada. Ela dará flores cheirosas que os veados, as capivaras e os lobos virão comer nas noites de luar. Depois, nascerão frutos. Dentro da casca verde, os frutos serão dourados como os cabelos de Uadi. Mas a semente será cheia de espinhos, como os espinhos da dor de teu coração de mãe. Seu aroma será tão tentador e inesquecível que aquele que provar do fruto e gostar, amá-lo-á para jamais o esquecer. Como também amará a terra que o produziu. Todos os anos, encherei, generosamente, sua copa de frutos, que os galhos se curvarão com a fartura. Ele se espalhará pelos campos, irá para a mesa dos pobres e dos ricos Quem estiver longe e não puder comê-lo sentirá uma saudade doida de seu aroma. Nenhum sabor o substituirá. Ele há de dourar todos os alimentos com que se misturar e, na mesa em que estiver, seu odor predominará sobre todos. Ele há de dourar também os licores, para a alegria da alma".
Tainá-racan ergue o olhar, aquele olhar onde brilhou a primeira estrela da consolação. E perguntou ao deus:
-Como se chamará, Cananxiué, esse fruto, cujo coração são os espinhos de minha dor, cuja cor são os cabelos de ouro de Uadi e cujo aroma é inesquecível como o cheiro dessa mata, onde brinquei com meu filhinho?
-Chamar-se-á Tamauó, pequi, minha filha. Quero ver-te alegre de novo, pois te darei muitos filhos, fortes e sadios como Maluá. E teu marido voltará cheio de glória da batalha, pois muitos séculos se passarão até que nasça um guerreiro tão destemido e tão honrado! Ele comerá deste fruto e gostará dele por toda a vida!"
Tainá-racan sorriu. E o pequizeiro começou a brotar.






Pequi- Foto de Marcio Cabral

FLOR DO PEQUI
Poema de Jaime Leitão

A flor do pequi
parece um beija-flor
em pleno voo
na flor da palavra
que o acolhe
fruta viva
que nasce na aridez
com a força
e a beleza
que só a flor do pequi tem.

Flor do pequi.
Extrema flor
que me toca
fundo
quando a vejo
diante dos meus olhos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Apresentação Programa Pequis para Todos

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Comunidade do Córrego Rico recebe monitores do Projeto Águas do Paracatu

Iniciaram em janeiro as visitações à comunidade ribeirinha, dentro do Programa de Revitalização do Córrego Rico, parte integrante do Projeto Águas do Paracatu.



Os monitores do Projeto estão fazendo um contato mais estreito com os moradores destas localidades, por meio de um questionário simples e observações diretas da qualidade de vida local.

Além do cadastramento de moradores estão sendo levantados dados que farão parte do relatório final do Projeto e um trabalho pacífico e paciente de educação ambiental. Cada casa visitada recebeu um kit educativo composto de uma bolsa ecológica, um informativo ambiental Pimenta Malagueta e um calendário alusivo ao projeto.


Nesta oportunidade os moradores podem expressar as suas opiniões, problemas e questões de grande importância para a conservação das margens do córrego e a qualidade de suas águas.




Em muitas das áreas presenciamos cenas chocantes de abandono e desprezo total do ambiente partilhado entre todos os paracatuenses.


Em pleno século XXI, ainda temos "casinhas" nos quintais, ausência de rede de esgoto, canalização direta de resíduos para dentro do leito do Córrego, criação de animais sem os devidos cuidados, construções irregulares em áreas de risco e oferecendo perigo aos próprios moradores, trechos totalmente assoreados e registramos o vandalismo quanto às mudas plantadas e replantadas quando da primeira etapa do Projeto em 2010/2011.


Observamos a necessidade da população de dar voz a suas reivindicações quase que diárias, mas também pudemos notar que há uma urgência em realizar um trabalho de educação ambiental ostensivo e permanente com estes cidadãos, não importando a idade ou condição social.

A conclusão das visitas está prevista para a primeira quinzena de fevereiro.

Confira algumas imagens das visitas.



Fotos: Aline, Ranielle e Gustavo - Monitores do Projeto Águas do Paracatu
Redação: Ascom - MOVER

domingo, 15 de janeiro de 2012

Entrega de material educativo agita o sábado paracatuense

Em mais uma ação do Projeto Águas do Paracatu, neste sábado (14) a feira central da cidade recebeu a equipe do MOVER para um corpo a corpo  com os frequentadores e também para a entrega de material educativo sobre o Córrego Rico e o Córrego Pobre.











Foram distribuidos calendários com ilustrações, retratando o estado atual das localidades. Na oportunidade, toda  a equipe orientava os cidadãos sobre a importância de acompanhar estas ações e a necessidade da participação individual na tarefa de cuidar dos corpos d'água da região.
Beneficiários diretos e também administradores fundamentais das consequências negativas, as opiniões, de maneira geral, convergiam com o trabalho do MOVER na  preservação dos córregos.

Pessoas contaram histórias que guardam na memória de quando estes cursos d'água eram limpos e se mostraram solidárias quando o assunto é cobrar das autoridades e dos próprios cidadãos um pouco mais de respeito e observação atenta dos bens naturais comuns. Todos receberam também o informativo ambiental Pimenta Malagueta.

Pudemos observar também o grande número de pessoas que ainda não aderiram ao hábito do uso das sacolas ecológicas. O público usuário das sacolas, em geral, é feminino e dentro de uma faixa etária acima dos 40 anos. Os mais jovens ainda não expressaram esta preocupação, talvez pela falta da oferta no mercado paracatuense, ou pela comodidade da ainda farta presença das sacolas plásticas no comércio local. Por outro lado, há quem não vá às compras sem as suas sacolas ecológicas e incentivam o uso dentro de seus círculos familiares e de amigos. Abaixo alguns bons flagrantes.

FOTOS/REDAÇÃO: ASCOM MOVER

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mais de 2000 mudas de pequi entregues e plantadas!

O Programa Pequis para Todos teve repercussão positiva e imediata. Foram mais de 2000 mudas de pequizeiro entregues entre dezembro/11 até janeiro/12 a um total de 44 produtores rurais comprometidos com o Projeto.

O destaque maior fica por conta dos moradores e proprietários de terras do P.A. Buriti da Conquista que em forma de associação, puderam receber mais de 800 mudas e distribuir entre os vários interessados no plantio em suas propriedades.

Por saberem o valor da planta e por conhecerem a necessidade de enriquecimento da flora local, os produtores fizeram o plantio seguindo as normas repassadas pelo Programa Pequis para Todos e com a orientação do MOVER, irão em conjunto monitorar o desenvolvimento das mudas.






As propriedades estão sendo referenciadas por GPS e receberão visitas mensais para acompanhamento.












                                          Fotos: Tonhão, Gustavo e Tobias
                                               Redação: Equipe P.A.P

sábado, 31 de dezembro de 2011

Pimenta Malagueta circula de boca em boca


O Pimenta Malagueta já está nas ruas!
Confira o conteúdo em nossa página.
Leia mais clicando aqui!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Produtores Rurais e MOVER unem-se em torno do Programa Pequis para Todos

No dia 15 de Dezembro o MOVER promoveu um encontro no auditório de sua sede com os produtores rurais cadastrados em oportunidade anterior, com o objetivo de acertarem os primeiros detalhes e instruções a cerca do início do Programa Pequis para Todos, o qual prevê a distribuição de 2000 mudas da planta a produtores rurais interessados, plantio, acompanhamento dos ciclos da planta e manutenção monitorada ao longo do primeiro ano do programa. Para a conferência futura, está sendo feito o  georreferenciamento da área plantada de cada lote de mudas entregue.

Estiveram presentes 09 produtores que irão receber cerca de 100 mudas de pequizeiro para plantio imediato em suas propriedades.
A principal intenção deste programa é fortalecer e encorpar a flora local de cada propriedade e médio prazo, oferecer ao produtor agregado ao programa, uma fonte alternativa de renda com a comercialização do pequi.

O coodenador do Projeto Águas do Paracatu - Antônio Eustáquio Vieira - Tonhão, apresentou a todos as vantagens do trabalho em conjunto, a necessidade do plantio imediato das mudas recebidas, a forma mais adequada para este plantio e o benefício direto ao meio ambiente. Explanou  ainda sobre a parceria Mover/Kinross no empreendimento do Projeto Águas do Paracatu. Em seguida foi exibida uma apresentação que mostrou os usos e empregos do fruto do pequizeiro, inclusive aspectos de preservação cultural, de modo a estimular o participante a enxergar, na prática, a extensão de sua colaboração.
Ao final da reunião, os produtores assinaram um Termo de Adesão ao Projeto e foram agendadas as entregas das mudas em cada região e as visitas de monitoria às áreas plantadas.